Gilvan Procópio

 

            “1968 no Brasil foi um fracasso”

               

                Depois de 40 anos, o professor Gilvan Procópio do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora lembra como o movimento estudantil era mais agregado e forte na luta contra a repressão da ditadura militar. Em 1968, ele era secretário de cultura do Diretório Central dos Estudantes da UFJF. O primeiro fato que lhe veio à mente quando perguntado sobre os acontecimentos de 68 foi o assassinato do estudante Edson Luiz feito pelo tenente Alcindo Costa. “Nós ocupamos o atual prédio do Museu de Arte Moderna em protesto contra o assassinato do estudante”.

                O policiamento tomou conta do lugar da manifestação. Mas, segundo o professor essa convivência com os policiais era muito comum durante os anos de chumbo. O DCE era constantemente visitado por soldados do Exército e policiais à procura de documentos subversivos. Tendo que lutar contra a repressão, Gilvan Procópio conta que o pensamento do movimento estudantil se dividia em duas linhas de atuação. “Existia um grupo que organizava a resistência dentro da legalidade, e outro que queria a luta armada”. O professor pensou em pegar em armas para fazer valer os ideais de liberdade da época, mas desistiu, e continuou na militância política sem o uso da violência. “Lutar com revólver, enquanto o regime colocava tanques de guerra contra os estudantes, era inútil”.

Gilvan Procópio: "Nós éramos radicais demais"

              

                 Há 40 anos, as universidades “respiravam política”, lembra Procópio. Hoje, ele considera que a “liberdade democrática alcançada dispersa mais do que agrega”, e que falta no ambiente universitário é clima de discussão. O professor considera que “1968 no Brasil foi um fracasso”, porque não houve uma perpetuação dos ideais de liberdade da época. “Alguns fatos apenas podem ser considerados legados de 1968, como 1992 no impeachment do Collor e agora com a discussão dos direitos dos homossexuais”.

                Perguntado sobre quais foram os erros do movimento estudantil de 1968, o professor é enfático: “Nós éramos radicais demais. Isso gerava mais antipatia do que agregação”. Gilvan conta que os jovens daquela época defendiam as liberdades individuais, mas confessa: “A ação era monolítica na política, diferente do pensamento”.

A imaginação toma o poder

Uma das formas encontradas pelos estudantes de 1968 para divulgarem suas idéias foi através dos slogans escritos em cartazes e nos muros. Na França, essa forma de protesto atingiu o seu ápice. Entre os lugares preferidos estavam as faculdades de Sorbonne, Nanterre e Belas Artes, nos arredores do Teatro Odéon e dos Boulevards Saint-Michel e Saint-Germain.

Além de irreverentes e provocadores, estes slogans refletiam o pensamento da época. Essas mensagens eram dirigidas não só ao poder, aos patrões e à polícia -mas também aos próprios estudantes e às instituições da esquerda tradicional. O Portal G1 fez uma lista com 68 slogans que marcaram o período:

"Abaixo a sociedade de consumo."
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo."
"A ação não deve ser uma reação, mas uma criação."
"O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime."
"Amem-se uns aos outros."
"O álcool mata. Tomem LSD."
"A anarquia sou eu."
"As armas da crítica passam pela crítica das armas."
"Parem o mundo, eu quero descer."
"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir."
"A arte está morta, liberemos nossa vida cotidiana."
"Antes de escrever, aprenda a pensar."
"A barricada fecha a rua, mas abre a via."
"Ceder um pouco é capitular muito."
"Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês."
"A cultura é a inversão da vida." "10 horas de prazer já."
"Proibido não colar cartazes."
"Abaixo do calçamento, está a praia."
"A economia está ferida, pois que morra!"
"A emancipação do homem será total ou não será."
"O estado é cada um de nós."
“A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista.”
"A imaginação toma o poder."
"A insolência é a nova arma revolucionária."
"É proibido proibir."
"Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê."
"Eu gozo."
"Eu participo. Tu participas. Ele participa. Nós participamos. Vós participais. Eles lucram."
"Os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos."
"A liberdade do outro estende a minha ao infinito."
"A mercadoria é o ópio do povo."
"As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes."
"Não mudem de empregadores, mudem o emprego da vida."
"Nós somos todos judeus alemães."
"A novidade é revolucionária, a verdade, também."
"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade."
"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão."
"Professores, vocês nos fazem envelhecer."
"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor."
"A poesia está na rua."
"A política se dá na rua."
"Os sindicatos são uns bordéis."
"O sonho é realidade."
"Só a verdade é revolucionária."
"Sejam realistas, exijam o impossível."
"Tudo é Dadá."
"Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século."
"Abolição da sociedade de classes."
"Abram as janelas do seu coração."
"A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. "
"Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo. "
"Autogestão da vida cotidiana"
"A felicidade é uma ideia nova."
"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu."
"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências."
"Ainda não acabou!" "Consuma mais, viva menos."
"O discurso é contra-revolucionário. "
"Escrevam por toda a parte!"
"Abraça o teu amor sem largar a tua arma."
"Enraiveçam-se!"
"Ser rico é se contentar com a pobreza?"
"Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é."
"Adoro escrever nas paredes."
"Decretado o estado de felicidade permanente."
"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está mudando."
"Não tomem o elevador, tomem o poder."

Itamar Bonfatti

“O jovem de hoje vive outro A.I-5, o consumismo”

 

 

            Eu sabia que tudo que eu falava em sala de aula estava sendo anotado ou gravado”. Essas palavras são do professor aposentado Itamar Bonfatti ao retratar o clima na UFJF, após a instalação do Ato Institucional 5 (A.I-5), em 1968, que cerceava as liberdades individuais no Brasil, quatro anos depois do golpe militar. Ele conta que as universidades e a Igreja eram as únicas instituições no país que conseguiam fazer algum tipo de oposição ao regime de ditadura.

                A experiência do professor, que foi preso nos “anos de chumbo”, ensina que o pensamento político da sociedade brasileira de hoje ainda sofre os resultados de 21 anos de cerceamento das liberdades. Antes de 1968, os movimentos sociais tinham o mínimo de garantia constitucional. Bonfatti considera que as pessoas que têm entre 40 e 50 anos foram alijadas do processo político. A juventude brasileira, em sua grande maioria, não foi educada a questionar o sistema, porque seus pais viveram em um país onde não existia o direito a qualquer manifestação. Essa geração, para o professor, não transmitiu para seus filhos uma consciência crítica. “O jovem de hoje vive outro A.I-5, o consumismo. Ele prefere freqüentar shopping a movimentos políticos. As conseqüências de uma ditadura são terríveis e  a longo prazo.”

                O regime de repressão estrangulou também os sindicatos, locais que eram centro de questionamento político. O professor acredita que hoje o movimento sindical não tem uma consciência sindical aguda no país porque é uma conseqüência do cerceamento de 1968.

Itamar Bonfatti: "A ditadura de hoje é o consumismo"

                Itamar Bonfatti ressalta que 1968 foi um ano importante para se repensar o Brasil. O Ato Institucional 5 fez brotar lideranças mesmo na clandestinidade que atuam no regime democrático atualmente. O governador de São Paulo José Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a ministra Dilma Roussef e o presidente Lula são exemplos de líderes que lutaram contra o regime de ditadura.

                O professor acredita que, se não houvesse essa paralisação do processo político eleitoral, a sociedade brasileira já teria avançado bastante sua consciência crítica. A ditadura atrasa qualquer país do mundo. A partir de 1968 com os acontecimentos em vários países que envolveram a juventude pedindo paz e liberdade, houve uma mudança de mentalidade. Mas, a instalação do A.I-5 no Brasil atrasou esse tipo de manifestação dos jovens brasileiros.

A dor de uma consciência "autovetada"

 "A pior censura é a autocensura".

Não me esquivo a dizer que esta a frase se tornou para mim uma espécie de “máxima” da mídia durante os anos do regime militar e, em especial, após o ano de 1968, quando foi instituído do AI-5.

 

Durante o meu trabalho de apuração para redigir uma matéria especial sobre a imprensa em 1968, entrevistei seis profissionais da comunicação que tiveram grande destaque na mídia de Juiz de Fora da época: o jornalista político Wilson Cid, o repórter fotográfico Jorge Couri, o redator (e, posteriormente, editor), Ivanir Yasbeck, o jornalista Ismair Zaguetto, o diagramador José Luiz Ribeiro e o então estudante de jornalismo (que depois veio a se tornar diretor da Faculdade de Comunicação da UFJF), Adilson Zappa. E, para a minha surpresa (ou talvez não), todos repetiram a mesma frase: “A pior censura era a autocensura”. O que isso viria a significar? Será que a censura dos militares, com suas ameaças de prisões, torturas e exílios não era de tamanha repercussão hostil que não causasse certo clima amedrontador nas redações?

 

Não estava de tudo errada. A censura era sim repudiada por todos os profissionais da imprensa. Ter sua liberdade “arrancada” às custas da manutenção de um regime anti-democrático era frustrante ao ofício diário daqueles jovens jornalistas. Mas o que mais incomodava, ou talvez o que efetivamente contribuiu para impedir que o jornal impresso ou a rádio fossem instrumentos de manifestação da indignação contra o regime era a própria consciência dos profissionais. E isso realmente incomodava, pois não se tratava uma restrição externa, em que se pudesse aliviar do dolo apontando culpados. Era como que um mecanismo de defesa natural da razão de cada um.

 

Todos sabiam que, mesmo que desejassem usar suas “armas ideológicas” para combater a ditadura, seriam barrados pelos censores e, no mínimo, teriam todo o seu trabalho de redação literalmente jogado no lixo. Por isso não ousavam. Poderia ser por inocência, por medo ou até mesmo covardia. Mas não era isso. Na verdade, o próprio ambiente instaurado pelo regime “formatou” suas cabeças a se desviarem desse ensejo. Para José Luiz Ribeiro, uma autodefesa pessoal. “Todos éramos pais, tínhamos que manter nossos empregos para sustentar a nossa família”, defende. Para Ivanir Yasbeck uma “consciência profissional” para evitar um conflito desnecessário.

 

E isso significou negligência ou falta de profissionalismo?

 Acredito que não podemos julgá-los desta maneira. Aliás, sigo a posição de Ivanir: “O que não pode é a autocensura coexistir hoje em função de prestígio político”. Se naquela época, em que a liberdade era uma realidade distante, já se buscava, mesmo que nas entrelinhas, manifestar a cidadania, hoje esse comprometimento com a verdade e com a ação social deve ser ainda mais reforçado. Esse é o nosso papel - dos futuros profissionais da imprensa: abraçar a liberdade como meio de promoção de uma sociedade democrática e, acima de tudo, consciente de sua importância na vida política do país.

Na política e no esporte, jogos.

 

 
Atletas homenageiam o movimento dos Panteras Negras ( Foto retirada da Internet)
 
O México foi o país sede das Olimpíadas de 1968, e foi marcado por uma série de curiosidades. Primeiro foi eleita apesar do protesto de médicos e fisiologistas, que faziam sérias ressalvas quanto à prática esportiva na altitude. Nessa disputa ela ganhou de cidades como Buenos Aires na Argentina, Detroit nos Estados Unidos e Lyon na França. Esta seria a primeira olimpíada disputada na América Latina.

Foi conhecida como a primeira olimpíada a ter o controle ao uso de doping e a introdução das provas de comprovação de sexo para as provas femininas, provavelmente pelas suspeitas sobre as características físicas de algumas campeãs dos países do bloco socialista. Nenhuma mulher foi desclassificada, mas muitas importantes atletas não se inscreveram nas competições. Foram também as primeiras olimpíadas em que as duas Alemanha competiram separadas, enquanto África do Sul e China ficaram de fora.

A altitude causou um fato interessante: a falta de 30% do oxigênio na mistura do ar permitiu a quebra de 68 recordes mundiais e 301 olímpicos, muitos deles perduraram anos, mas fez efeito contrario nas provas de resistência. Muitos acabaram abandonando essas provas devido à falta de preparo em altitudes.

Os Jogos Olímpicos do México ficaram marcados pela situação política em que foram realizados, com inúmeras revoluções e protestos ocorrendo em todo o mundo, o que acabou sendo levado para o esporte de uma forma ou de outra. Pelo bloco socialista, inúmeros atletas ganharam medalhas e foram contestados quanto ao uso de doping. O preconceito racial também chegou aos esportes nos Jogos de 68. A delegação norte-americana era dividida em duas: brancos e negros. Liderados pelo sociólogo e ex-atleta Harry Edwards, atletas negros ameaçaram um boicote aos Jogos. Quando todos achavam que a história tinha acabado, Tommie Smith e John Carlos, que conquistaram respectivamente as medalhas de ouro e bronze, nos 200 metros rasos, subiram ao pódio com luvas pretas e levantaram o punho esquerdo fazendo a saudação ao movimento negro conhecido como panteras negras. Foram expulsos dos jogos e tiveram suas medalhas caçadas, mas outros atletas negros aderiram ao movimento, porém sem serem tão “agressivos”.

Mas um momento alegre marcou também esses jogos, foi no México que pela primeira vez uma mulher conduziu a tocha olímpica: a mexicana Enriqueta Basílio, especialista nos 400 metros rasos, tornou-se a primeira mulher a acender a pira olímpica. Apesar de toda essa agitação, o México ficou marcado como a pior participação de um país sede em jogos olímpicos, com o 15º lugar apenas.

O Brasil com uma delegação de 84 atletas ganhou apenas três medalhas, sendo uma de prata e duas de bronze. A medalha de prata foi concedida a Nelson Prudêncio no salto triplo, Na Vela, na classe Flying Dutchmann, Reinald Conrad e Bukhard Cordes, ganharam o bronze e Servílio de Oliveira conquistou a primeira e única medalha do Brasil no boxe, bronze entre os meio-médios.

"68 / Utópicos e Rebeldes"

Abertura da Mostra "68 / Utópicos e Rebeldes"
Cerimônia de abertura com a homenagem a personalidades que tiveram atuação destacada na música, literatura, política, direitos humanos, entre outros segmentos, no ano de 1968.
Data: 20 de junho - 20h
Local: Cinemateca Brasileira
Sala BNDES
Endereço: Largo Senador Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino - Informações: (011)3512-6111

Mostra Iconográfica e Audiovisual
Conteúdo da mostra composta de diversos acervos, incluindo o da extinta TV Tupi, fichas do Dops paulista dos participantes do 30º Congresso da UNE, fotografias, telejornais e documentos diversificados dos fatos mais relevantes da cultura, política e comportamento do ano de 1968. Exposição dos jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo com os principais acontecimentos da época.
Data: 20 de junho a 06 de julho - 14h às 22h
Local: Cinemateca Brasileira

Debates - Local: Cinemateca Brasileira - Sala BNDES
Movimento Estudantil: "Movimento Estudantil: A herança de 68 e as novas gerações"
Coordenador da mesa: Carlos Tibúrcio
Debatedores: Bernardino Figueiredo, José Dirceu e Lucia Stumpf
Data: 23 de junho - 20h

Cinema: "Rompendo o estabelecido: Nouvelle Vague e Cinema Novo"
Coordenador da mesa: Gustavo Dahl
Debatedores: Rubens Machado Júnior e Silvio Tendler
Data: 24 junho - 20h

Imprensa: "Liberdade de Imprensa: Da Ditadura à Democracia"
Coordenador da mesa: Audálio Dantas
Debatedores: Luis Gonzaga Beluzzo, Raimundo Pereira e Rodolfo Konder
Data: 25 junho - 20h

Teatro: "Explosão do novo e a continuidade do teatro"
Coordenadora da mesa: Ina Camargo
Debatedores: Augusto Boal e Renato Borghi
Data: 26 junho - 20h

Política: "A cicatriz que não fecha: a crise da esquerda e da democracia"
Coordenador da mesa: Gabriel Cohn
Debatedores: Gildo Marçal, Nilmário Miranda e Roque Aparecido Silva
Data: 27 junho - 20h
Tropicalismo: "Tropicalismo: Revolução e Indústria Cultural"
Coordenador da mesa: Celso Favaretto
Debatedores: Adilson Ruiz, Francisco Alambert e Walter Garcia
Data: 28 junho - 20h
Conferência
"Ainda somos irredutíveis?" - O legado dos protestos de 1968 a partir da obra "Os irredutíveis" de Daniel Bensaid.
Conferencista: Michael Lowi
Data: 03 de julho - 20h
Local: Cinemateca Brasileira - Sala BNDES

Apresentações Teatrais
"Prepare seu Coração"
(Direção de Iacov Hillel e texto de Mario Viana Torres. EAD _ Escola de Arte Dramática/USP) Data: 21 e 22 de junho - 17h
Local: Sesc Pompéia - Rua Clélia, 93 - Pompéia Ingressos: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (estudantes, professores, idosos, usuários matriculados); R$ 2,50 (comerciários matriculados)
Informações: (011) 3871-7700

"Pátria Armada" - Leitura Dramática do documentário (Autor: Leonardo Netto e Rodrigo Pitta - Direção: Leonardo Netto e Rodrigo Pitta) Data: 05 de julho - 20h
Local: Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822 - Ipiranga
Ingressos: R$ 10,00 (inteira);R$ 5,00 (estudantes, professores, idosos, usuários matriculados); R$ 2,50 (comerciários matriculados) Informações: (011) 3340-2000

"Consumindo 68" (Direção Marcelo Soler - Cia Teatro Documentário) Data: 02 e 03 de julho - 21h
Local: Sesc Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque
Informações: (011) 3234-3000 Gratuito

Oficina: Continuidade Histórica e Produção Simbólica
Projeto de oficinas de serigrafia e mimeógrafo com duração de três horas cada tem como objetivo resgatar formas de expressão simbólicas elaboradas durante e contra a Ditadura Militar.
Data: 20 de junho - 19h / 21 de junho - 10h às 13h e das 14h às 17h /22 de junho - 10h às 13h / 28 de junho - 10h às 13h e 14 às 17h / 29 de junho - 10h às 13h e 14h às 17h
Local: Cinemateca Brasileira
Inscrições pelo email: oficina.memoria1968@minc.gov.br

Lançamento de Livros - Local: Cinemateca Brasileira
"Rebeldes e Contestadores - 1968 - Brasil, França e Alemanha". Marco Aurélio Garcia e Maria Alice Vieira (organizadores)
Editora Fundação Perseu Abramo
Revista Teoria e Debate - Edição Especial 1968
Editora Fundação Perseu Abramo
Data: 23 de junho - 18h

"1968, por aí... Memórias Burlescas da Ditadura" - Mouzar Benedito
Editora Publisher
Data: 24 de junho - 18h

"68: Destinos. Passeata dos 100 Mil" - Evandro Teixeira
Editora Textual
Data: 25 de junho - 18h

"O Poder das Barricadas - Uma Autobiografia dos anos 60" - Tariq Ali
"As utopias de Michael Löwy - reflexões sobre um marxista insubordinado" - Michael Löwy
"Os irredutíveis - Teoremas da resistência para o tempo presente" - Daniel Bensaïd
A Margem Esquerda - nº 11
Editora Boitempo
Data: 26 de junho - 18h

"Tiradentes - Um presídio da Ditadura" - Org. Alípio Freire, Isaias Almada e J. A. de Granville
"Imagens da Revolução" - Daniel Araão Reis
"Estação Paraíso" - Alípio Freire
Editora Expressão Popular
Data: 27 de junho - 18h

"Sementes da memória - Os rebeldes de 68" - José Roberto da Silva
Editora Thesaurus
Data: 27 de junho - 18h

"O novo sempre vem"... mas deveria?

Observando os últimos posts, reparei que a música "Como nossos pais" tem sido um objeto de reflexão recorrente. Desde então fiquei pensando se, de fato, "o novo sempre vem"; Como nem sempre o "novo" representa uma mudança positiva, pensei se o novo deveria, de fato, vir. Coincidência ou não, caí na página online da Revista Época, que trazia o depoimento de um dos maiores líderes do movimento estudantil, dizendo: "Esqueçam 68". Daí cheguei à conclusão, que o novo, invariavelmente vem. Para bem e para mal. Embora as causas de 68 e suas bandeiras tenham sido essenciais para conquistas das quais desfrutamos até hoje - a "liberdade" de imprensa, por exemplo - é preciso deixá-las no passado. Há muito o que ser feito AGORA, e , como completaria Belchior...quem ama o passado acaba não vendo que o novo sempre vem, e não faz nada em prol deste.

Eis a íntegra da entrevista  publicada pela revista Época

Precisamos esquecer 1968”

O líder do movimento estudantil de 40 anos atrás é hoje um ecologista que critica as “contradições” de Lula

Christina Palmeira, de Estrasburgo (França)

"Não agüento mais falar de 1968”, diz Daniel Cohn-Bendit ao receber ÉPOCA em seu sóbrio gabinete no Parlamento Europeu. O jovem judeu-alemão que liderou o movimento estudantil de maio daquele ano, na França, hoje é um respeitável deputado de 63 anos, do Partido Verde. Acaba de lançar um livro com o significativo título Forget 68 (em inglês mesmo: “Esqueça 68”). A idéia central é que é preciso olhar menos para o passado e voltar-se para os problemas atuais, bem diferentes dos de 40 anos atrás. Mas Cohn-Bendit não tem como escapar da herança daquele período que o fez entrar para a História: seu filho, de 18 anos, pôs no celular uma foto clássica do pai em maio de 1968, encarando, desafiador, um policial. “Ele é rebelde a sua maneira”, diz o velho Cohn-Bendit.

ENTREVISTA

Daniel Cohn Bendit

 Chon bendit atualmente é deputado pelo PV ( Foto retirada da versão online da revista Época)

 













 

 

 

 

 

 

 

QUEM É
Nasceu em 1945 na França, filho de judeus-alemães que fugiram do nazismo. Mudou-se para a Alemanha na adolescência e voltou à França em 1966 para estudar Sociologia em Nanterre

O QUE FAZ
Expulso da França depois de maio de 68, entrou para o movimento anarquista alemão. Em 1984, aderiu ao Partido Verde. Em 1994, foi eleito para o Parlamento Europeu. Hoje vive com a mulher, o filho e o enteado em Frankfurt

 

 

ÉPOCA – O senhor disse que seu livro sobre 1968 foi motivado por uma declaração do então candidato à Presidência da França, Nicolas Sarkozy, em maio de 2007: “Quero liquidar 68”. Por quê?
Daniel Cohn-Bendit – Na realidade, eu não tinha previsto fazer nada pela comemoração de 40 anos. Mas, depois da intervenção de Sarkozy, senti-me obrigado a responder, porque ele pôs nas costas de 1968 todos os males de nossa sociedade. Decidi dar minha versão da herança de maio de 68.

ÉPOCA – E qual é sua versão?
Cohn-Bendit – Eu disse que o que se passou na França em 1968, e o que aconteceu em 1967 e 1968 em outros países, como na Alemanha e nos Estados Unidos, foi uma época formidável, um fator de modernização e liberalização de nossa sociedade. Mas que devemos esquecer, porque nos encontramos diante de outros problemas. Refazer o debate do que aconteceu há 40 anos não serviria para nada.

ÉPOCA – Como o senhor descreve os acontecimentos daquele mês?
Cohn-Bendit – O problema era bem simples. A partir do momento em que a polícia ocupou a universidade, o movimento não tinha mais uma sede. O receio era de que as pessoas tentassem desalojar a polícia da universidade, o que não era possível. As barricadas foram um movimento de cerco. Na famosa noite das barricadas, houve uma negociação no início. Propusemos abrir as universidades. Mas o poder não quis. O poder não queria, sobretudo, negociar comigo. Quando souberam que eu fazia parte da comissão negociadora, eles recusaram.

ÉPOCA – Por quê?
Cohn-Bendit – Porque eu era o “malvado”.

ÉPOCA – Uma das críticas a maio de 68 é que o movimento intensificou o sentimento de individualismo, o que teria, paradoxalmente, dado origem às idéias “neoliberais”. A direita se apropriou de maio de 68?
Cohn-Bendit – Isso é o que disse Sarkozy. O movimento de 1968 foi muito solidário, social. É uma idiotice culpar maio de 68 pelo individualismo e pelo egoísmo do neoliberalismo. Confundem autonomia com egoísmo. Era um movimento coletivo, com indivíduos autônomos. Há aí uma mistura de estações. Os grandes patrões franceses, com seus “pára-quedas dourados” (
indenizações milionárias de demissão), não têm nada a ver com 68.

ÉPOCA – O que 1968 representou para as mulheres?
Cohn-Bendit – As mulheres reivindicavam sua autonomia, no interior do movimento, ante os homens e a sociedade. O movimento feminista não começou em 1968, mas a radicalização daquela época permitiu às mulheres recomeçar. É bom lembrar que até 1965 ou 1966, na França, uma mulher casada que quisesse trabalhar ou abrir uma conta no banco era obrigada a pedir autorização por escrito para seu marido. Essa era a sociedade francesa dos anos 60. Era uma concepção de que o homem, o pai, o chefe da família decide, assim como De Gaulle era o chefe da França, o chefe da “família França”.

“ Lula não tem a menor idéia daquilo que compreendemos sobre a evolução do planeta ”

ÉPOCA – No livro, o senhor elogia Charles de Gaulle, então presidente da França e maior alvo do movimento dos estudantes em 1968. Seu discurso mudou?
Cohn-Bendit – Não. Eu disse que De Gaulle modernizou economicamente a França. Negar isso não serve para nada. Mas ele não compreendeu nada da evolução da sociedade francesa. Seu extraordinário saldo de modernização foi ofuscado por uma moral e uma concepção da sociedade paternalista e autoritária completamente ultrapassadas.

ÉPOCA – Recentemente o senhor reencontrou Maurice Grimaud, o chefe de polícia de Paris em 1968, ainda lúcido aos 95 anos. Como foi esse reencontro?
Cohn-Bendit – Foi uma iniciativa da revista
Le Point. É interessante. Grimaud, que era um homem de esquerda, se opunha ao poder gaullista. Ele queria manter a ordem, mas ao mesmo tempo dizia que aquele era um movimento social que De Gaulle não compreendia. Ele tentou equilibrar a intervenção da polícia, o que não conseguiu. E foi contra minha expulsão. Dizia que eu era alguém capaz de controlar e de canalizar o movimento, para que ele não fugisse do controle.

Cohn-Bendit em 1968, diante dos policiais que ocuparam as universidades ( Foto retirada da versão online da entrevista, na Revista Época)


ÉPOCA – Em maio de 1968 o senhor era conhecido como Danny, o Vermelho. Como o senhor se converteu em Danny, o Verde?
Cohn-Bendit – Depois de maio de 68, fui expulso da França, porque eu era de nacionalidade alemã. Participei do movimento estudantil alemão, trabalhei em um jardim-de-infância, depois numa livraria, editei uma revista alternativa em Frankfurt chamada
Pflasterstrand (algo como “praia sob o asfalto”). No fim dos anos 70, houve na Alemanha um movimento alternativo, antinuclear. E uma parte desse movimento alternativo passou para o movimento ecologista.

ÉPOCA – O senhor comparou Lula a Nicolas Sarkozy, dizendo que os dois têm um discurso contraditório sobre ecologia. O que o senhor quis dizer?
Cohn-Bendit – Acredito que Lula represente a tradição socialista. É o produtivismo socialista, a velha escola socialista, a monocultura, o biocombustível, a retomada da energia nuclear, a intensificação da agricultura por meio dos transgênicos. Acho que ele não tem a menor idéia daquilo que compreendemos sobre a evolução do planeta.

ÉPOCA – Como o senhor viu a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente?
Cohn-Bendit – Ela pediu demissão porque não podia mais. Ela era a “consciência ambiental” de Lula, mas não podia fazer nada. Não conheço Carlos Minc, talvez o tenha visto uma ou outra vez. Sei que ele foi do Partido Verde. Mas a verdadeira consciência ecologista do Brasil é Fernando Gabeira.

Fonte: Revista ÉPOCA, maio 2008, edição 523

Tropicalismo: revolução musical

A música possuiu um papel de destaque durante toda a ditadura. Nomes como: Chico Buarque, Gonzaginha, Geraldo Vandré, dentre muitos outros, marcaram o período com suas letras politizadas.

Seguindo uma outra vertente, surge um movimento que procurava desconstruir o que estava estabelecido. No III Festival de MPB da TV Record, em 1968, o movimento tropicalista mostrava sua face. Os arranjos que misturavam diversos ritmos tipicamente brasileiros com guitarras distorcidas e as letras que possuíam um caráter supostamente descompromissado com as questões políticas impressionaram os ouvidos acostumados às canções de protesto de Chico Buarque e Pra não dizer que não falei de flores “Caminhando e Cantando”, de Geraldo Vandré.

Clássicos como “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, acompanhado dos Beat Boys e “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, acompanhada de Os Mutantes marcaram o III Festival.

O Movimento Tropicalista propunha a internacionalização da cultura e uma nova expressão estética, não restrita ao discurso político. Os principais ícones eram Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Os Mutantes e Nara Leão, sob a batuta de Rogério Duprat.O III Festival Internacional da Canção (FIC), realizado pela Rede Globo no dia 15 de Novembro de 68, teve cenas antológicas. O público, ainda não adaptado as mudança proposta pelos tropicalistas, vaiaram Gilberto Gil, que acabou tendo a canção “Questão de Ordem” desclassificada. Caetano também se estranhou com a platéia durante a execução de “É Proibido Proibir”.

Em outra aparição, Caetano, vestindo uma roupa de plástico brilhante e colares exóticos, e Os Mutantes foram recebidos com ovos, tomates e pedaços de madeira. A platéia se postou de costas para o palco e a banda rebateu ficando de costas para a platéia. Caetano se defendeu: “Vocês não estão entendo nada, nada, nada, absolutamente nada”. A platéia não entendeu que Caetano e Gil se manifestavam contra o “bom gosto” que tanto a esquerda quanto a direita impunham à cultura.

O disco-manifesto “Panis et Circensis”, que contou com a participação de Gil, Caetano, Os Mutantes e Rogério Duprat, marcou época e ainda hoje influenciam músicos e artistas de modo geral.

Outro disco que deu muito que falar foi “Os Mutantes”, de 1968. A banda, composta pelos irmãos Sergio e Arnaldo Baptista e Rita Lee, teve este álbum incluído no livro “1001 discos para ouvir antes de morrer”, que foi produzido por 90 jornalistas e críticos de música internacionalmente reconhecidos. O mesmo disco foi incluído em uma lista dos 50 discos mais experimentais de todos os tempos, elaborada pela conceituada revista britânica Mojo. Os Mutantes obtiveram a 12ª posição desbancando seus próprios ídolos: os Beatles, além de Pink Floyd e Frank Zappa.

"O novo sempre vem..."

Contra a censura, pela cultura (imagem retirada de: http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=514)

 

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes saiu do Ceará e foi tentar a sorte no eixo Rio-São. Era a década de 70, imperava a censura e ele, Belchior, ex-universitário, que abandonou o curso de medicina para se dedicar à música, estrearia no Rio de Janeiro em 1971, vencendo o IV Festival Universitário de Música Popular Brasileira com a composição “Na Hora do Almoço”.

 

Depois dessa composição muitas outras fizeram sucesso, dentre elas uma merece o reconhecido destaque que ganhou na voz de Elis Regina. “Como nossos pais” foi lançada em 1976 e reflete as ilusões e desilusões dos filhos de 68.

 

Anos 70. O Brasil vivia tempos difíceis sob a ditadura militar. Quem governava era o general Emílio Garrastazu Médici e a seleção brasileira se tornara a primeira seleção tri-campeã do mundo. A felicidade do futebol se opunha a repressão e a censura impostas aos brasileiros. Na luta contra o sistema tínhamos nas artes o movimento tropicalista.

 

Foi nesse cenário que Belchior escreveu uma das letras mais marcantes da MPB. São versos que vão de encontro ao conservadorismo e o conformismo do povo brasileiro rendido pelo AI-5.

 

Provocativa, “Como Nossos Pais” critica a acomodação dos jovens conformistas e conformados diante dos problemas e entreves que encontram em seus caminhos. Apesar da força da juventude, preferem se omitir a ter de se arriscar e enfrentar a luta: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos / (...) / ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...”.

 

Ainda hoje temos de lutar contra ditaduras. Não mais uma ditadura militar, mas ditaduras sociais, do superficialismo, do materialismo, do corpo, do desejo; ditaduras da alma e do espírito. O desconhecido amedronta, mas é no novo que evoluímos, é na mudança que crescemos e aprendemos. Como diz a mensagem da música, temos que deixar de nos esconder na nostalgia de tempos que não são o nosso. Temos de aprender sim com a coragem daqueles que enfrentaram o já estabelecido e lutaram pelo que temos hoje. Temos de agradecer a eles pelo presente, mas sem esquecer que somos nós que construiremos o futuro. “O novo sempre vem”, que tipo de futuro queremos ter? O que fazemos para conquistá-lo?

 

Elis Regina (imagem retirada de: http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/12/img_foto2563.JPG)

 

Como nossos pais (1976) - Belchior

 

Não quero lhe falar, meu grande amor/ Das coisas que aprendi nos discos/ Quero lhe contar como eu vivi/ E tudo o que aconteceu comigo/ Viver é bem melhor que sonhar/ E eu sei que o amor é uma coisa boa/ Mas também sei que qualquer canto/ É menor do que a vida de qualquer pessoa/ Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina/ Eles venceram e o sinal está fechado pra nós/ Que somos jovens/ Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua/ É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz/ Você me pergunta pela minha paixão/ Digo que estou encantado como uma nova invenção/ Eu vou ficar nessa cidade, não vou voltar pro sertão/ Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação/ Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração/ Já faz tempo eu vi você na rua/ Cabelo ao vento, gente jovem reunida/ Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais/ Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais/ Nossos ídolos ainda são os mesmos/ E as aparências não enganam, não/ Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém/ Você pode até dizer que eu tou por fora/ Ou então que eu tou inventando/ Mas é você que ama o passado e que não vê/ Mas é você que ama o passado e que não vê/ Que o novo sempre vem/ Hoje eu sei que quem me deu a idéia/ De uma nova consciência e juventude/ Ta em casa guardado por Deus/ Contando vil metais/ Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/ Nós ainda somos os mesmo e vivemos/ Ainda somos os mesmo e vivemos/ Como nossos pais.

 

 

>> ANÁLISE DA LETRA

 

"Nessa letra percebemos a forte presença do positivismo, a idéia de um novo mundo com novos pensamentos e ideologias. Começando pela primeira estrofe “Não quero lhe falar, meu grande amor/ Das coisas que aprendi nos discos/ Quero lhe contar como eu vivi/ E tudo o que aconteceu comigo...” podemos ver que a vanguarda vai sendo deixada de lado ao ser dito que as experiências de frases feitas de discos não valem de nada; o que conta mesmo são as experiências vividas, isso é o que faz uma pessoa evoluir mentalmente. Juntamos essa estrofe com a passagem “Mas também sei que qualquer canto/ É menor do que a vida de qualquer pessoa/ Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina/ Eles venceram e o sinal está fechado pra nós/ Que somos jovens..”, citando o estado perigoso em que se encontrava o futuro do mundo, os grandes transformadores das gerações futuras, nesse caso aí sendo os jovens. Essa parte diz que “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, uma referência (ou não) à censura do AI-5, que fez o sinal estar fechado para os jovens pela falta de liberdade de expressão, fazendo com que a juventude da época caísse no comodismo forçado pelos militares conservadores. Mas como sempre há aquele que enxerga uma luz no fim do túnel, o autor diz “Você me pergunta pela minha paixão/ Digo que estou encantado como uma nova invenção/ Eu vou ficar nessa cidade, não vou voltar pro sertão/ Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação/ Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração...”, dando ênfase a um futuro positivo esperado pelos indivíduos da época, principalmente os jovens. Aliás, os estudantes sempre estiveram presentes nos anos de ditadura. A UNE foi um braço forte indo de encontro aos ideais ditatoriais da época.

“Já faz tempo eu vi você na rua/ Cabelo ao vento, gente jovem reunida/ Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais/ Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais...” vem falando de uma revolução civil que caiu no esquecimento, onde os jovens não eram mais aqueles rebeldes com vontade de ver o mundo de outra maneira como pregava o Rock N’ Roll, nascido nos anos 50. Já que essa revolução foi deixada de lado, a vida voltou a ser como era nas primeiras décadas do século XX, onde a liberdade não era plena.


Outra passagem importante de ser analisada é essa: “Nossos ídolos ainda são os mesmos/ E as aparências não enganam, não/ Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém/ Você pode até dizer que eu tou por fora/ Ou então que eu tou inventando/ Mas é você que ama o passado e que não vê/ Mas é você que ama o passado e que não vê/ Que o novo sempre vem...”. De fato o novo surpreende. E dito aqui que ninguém busca novos horizontes e pensamentos, e é urgente essa necessidade de busca. Se já é difícil para inovar no começo do século XXI, onde o conformismo é maior e a ostentação também, imagine em tempos de ditadura militar... O novo choca onde quer que apareça, e sempre haverá aqueles que neguem as inovações com medo de reprovações. Podemos ver isso em “Hoje eu sei que quem me deu a idéia/ De uma nova consciência e juventude/ Ta em casa guardado por Deus/ Contando vil metais...”, onde aquele idealizador de novos pensamentos se fechou em seu mundo por ser classificado como membro periférico de um mundo onde tudo caminha em uma única direção e qualquer desvio é punido severamente.”

 

(Análise retirada de Dangerous Music)

O Dragão estava do lado, mas não cuspia tanto fogo

 Na história do teatro nacional, vários artistas apanharam dos militares. Marília Pera foi uma das que sofreu nas mãos daqueles que detinham o poder. A cidade de Juiz de Fora, por abrigar a 4a. Região Militar, poderia ter sido palco de incidentes como os dos grandes centros. Atualmente temos a percepção de que a censura e a ditadura estavam bem perto dos locais culturais na Manchester mineira. Era como se o mal estivesse para chegar a qualquer momento, sem pedir licença para entrar. Na verdade, não foi essa a realidade verificada nos depoimentos de teatrólogos da época.

Os três grandes grupos de teatro da década de 1960 são unânimes em dizer que a presença dos militares não influenciava tanto o fazer teatral. Lucas Marques Amaral foi um dos Fundadores do Teatro Universitário de Juiz de Fora (TUJF) e afirma que não tiveram problemas maiores, porque apresentavam as questões de forma sutil. Apenas uma vez a censura interferiu, cortando a fala de um dos personagens na peça A Margem da Vida. “O discurso defendia a TV por só ela dar dinheiro. Um dos filhos dizia isso: 'este é o segredo da democracia´. O censor não gostou da intenção de que a democracia é fruto daquele que trabalha”, explicou Lucas.

 

No Teci que durou 20 anos e foi comandado por Natálio Luz, a censura nunca mostrou suas garras. “Nós conhecíamos o censor, assim os problemas eram evitados”, comentou o diretor. Ele não se recorda de interferências na trajetória e nas montagens deste grupo, mas confessa que sempre havia uma pessoa assistindo aos ensaios ou aos espetáculos com o texto junto para verificar se o que estava sendo dito seguia o roteiro. Nos outros grupos, tal ato se repetia.

 

Por outro lado, na história do Grupo Divulgação, a tranqüilidade não reinou absoluta. José Luiz Ribeiro, um dos fundadores, conta que eles eram atrevidos, mas as pessoas davam uma aliviada por conhecerem o trabalho. Para transmitir as mensagens, “passamos a inventar uma forma de burlar”, afirmou Ribeiro. Dois incidentes marcam a trajetória do grupo. Diário de um Louco de 1969 foi proibida na noite de estréia, com o público chegando. “Levamos um tempo para conseguir apresentar”, contou. E em A Morta de 1972 um sujeito levou um gravador para o espetáculo. Uma das atrizes desceu do palco, tomou o aparelho e ele foi parar na cabine técnica, onde as gravações foram apagadas.

 

A conclusão desse panorama fica nas palavras de Nilo Batista: “vamos admitir que a censura é um dado com o qual tem o teatro de se haver” (Diário Mercantil, 23/10/67). E foi assim que o teatro vivenciou o período: obrigado, mas nunca silenciado ou apagado.

Enquanto isso, no Festival da Canção...


Discurso de Caetano Veloso durante a apresentação de "É Proibido Proibir", em meio às vaias no III Festival Internacional da Canção (Fase Nacional), em 68 – TV Globo.

"...Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem? Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu!”

“Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!”

“Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil (entrando no palco). Gilberto Gil está aqui comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Para acabar com isso tudo de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem... se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! Junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês... O júri é muito simpático, mas é incompetente.”

“Deus está solto!”


Fonte: http://calamengau.blogspot.com/2008/02/proibido-proibir-caetano-veloso.html

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais (?)

Evandro Lagreca, médico, 52 anos é meu pai. Devo a ele, entre tantas outras coisas, boa parte do meu gosto musical, principalmente o fato de ele ter me apresentado a cinco jovens de Liverpool, os Beatles. Nada disso vem ao caso agora. Conversando com ele sobre o assunto que motivou este blog, “o ano que não acabou”, não consegui parar de perguntar a mim mesma: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?”

Talvez, como na música e no meu caso, nossos ídolos ainda sejam os mesmos. Também graças ao Dr Evandro li, quando tinha mais ou menos 18 anos, “Os Carbonários”, de Alfredo Sirkis. Como quem sai aos seus não degenera, achei o livro excelente, uma narrativa muito interessante de alguém que viveu sob o fogo cruzado da ditadura e fez questão de ser parte daquilo. Também me identifiquei, mas muito mais por compartilhar a mesma indignação daquele povo que resolveu que não dava mais para continuar vivendo daquele jeito do que por eu fazer, como eles, alguma coisa a respeito do que me indigna na minha própria vida.

E é justamente essa a questão que não me sai da cabeça neste momento. Por quê, nós, herdeiros do legado de 1968, nos acomodamos? Por que agora que não existem mais os DOI- Codi's da vida, a gente simplesmente não consegue dizer que não está satisfeito com o rumo que o Brasil tomou? É bem verdade que resistir contra uma hegemonia, em tempos de ditadura ou “democracia”, acarreta -ou ao menos pode acarretar- conseqüências. Mas por que nos “anos de chumbo” existia tanta gente que pagava pra ver assim mesmo?

Fazemos parte de uma geração movida pela lei do menor esforço. Não que eu esteja criticando, pois me incluo nela sem hesitar. Fazemos parte de uma geração que defende a filantropia e os abaixo-assinados e dorme com a consciência tranqüila em seus travesseiros de pena de ganso. Não estou dizendo que isso é certo ou errado, simplesmente é. Talvez estejamos certos demais de que qualquer esforço acabará, como prega a consagrada expressão, “em pizza”. Talvez tenhamos sido acostumados a pensar que as coisas sempre podem ficar piores, e que é melhor “não mexer com quem está quieto.” Talvez não achemos que melhorar as coisas seja problema nosso,, que a descrença do brasileiro em relação à política também não seja, e que nossa apatia seja apenas uma conseqüência de nossa desilusão. E talvez, como numa prova de múltipla escolha, “todas as opções acima” estejam corretas.

“Você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando”, talvez a única coisa que nos mantenha “como nossos pais” sejam os traços físicos, os valores, a educação, e o fato de que, em alguns casos, “ nossos ídolos ainda sejam os mesmos”. Sendo herdeiros de um guerrilheiro, de um preso político ou de um colecionador de Pasquins que não se reconhece como tal, pode ser que os versos da música estejam certos e que “depois deles não apareceu mais ninguém”.

Evandro Lagreca, 52 anos, médico, é meu pai. Depois de anos de vida política, hoje ele não é sequer vinculado a algum partido porque, de acordo com suas próprias palavras, “a política só leva a dois caminhos: a corrupção e a desilusão”. Eu me desiludi sem sequer pegar a estrada que leva, necessariamente a um dos dois fins. Essa é a diferença entre meu pai e eu. E muitos de “nós” e “nossos pais”.

Artigo publicado no Diário Mercantil em outubro de 1967

Escrito por Nilo Batista

Liberdade, igualdade e felicidade

O ano de 1968 foi marcado por uma série de transformações políticas e comportamentais. As lutas dos jovens tiveram como eixo centrais: o desejo de liberdade, a recusa de qualquer forma de controle e autoridade, a explosão da sexualidade e a defesa da igualdade entre homens e mulheres. No que tange a sexualidade, a questão pode ser observada por diversos pontos de vista. De fato, o sexo deixou de ser tabu para a maioria das pessoas, sendo que o tema é abordado com naturalidade e freqüência pelos meios de comunicação.

No entanto, há quem acredite que 1968, longe de ter dado início a uma era de liberdade sexual real, teria estendido o domínio da luta capitalista para o sexo, de tal modo que cada um se torna substituível, em estado de insegurança permanente. Michel Houellebecq é um dos defensores dessa tese.

Indagado, em entrevista para a Folha de S. Paulo, do dia 4 de maio de 2008, Alain Finkielkraut, uma das referências do pensamento de direita na França, respondeu: “quisemos acreditar que a libertação sexual iria suprimir a dimensão da infelicidade. Mas não é porque tudo é permitido que tudo é possível. O desejo é uma escolha, e escolher é excluir. Sem dúvida hoje, mais do que nunca, é difícil ser feio, tímido ou antiquado. A proibição era um álibi para o fracasso. Nossa época é mais livre e, portanto, de certa maneira, mais cruel.”

Na edição do mesmo dia, o colunista da Folha, Slavoj Zizek, também discutiu o tema. Para ele, o que sobreviveu da libertação sexual dos anos 1960 foi o hedonismo tolerante, facilmente incorporado a nossa ideologia hegemônica. “Hoje o prazer sexual não é apenas permitido, é ordenado – os indivíduos se sentem culpados quando não podem desfruta-lo”, afirma.

Para Zizek, a tendência às formas radicais de prazer, seja por meio de experiências sexuais ou pelas drogas, surgiu em um momento preciso: quando o “espírito de 68” esgotou seus potenciais políticos.

1968 pelo mundo

Lições eternizadas...

 

 

 

1968 representou para a França um marco na formação ideológica e moral do país. Se nos anos anteriores da mesma década os franceses viviam sob um regime conservador, o ano de 68 vai representar uma reviravolta dos valores morais e ideológicos.

 

O mês de maio, especificamente é o grande momento dessa revolução. Em 30 dias, estudantes se organizaram em um movimento que desafiou vários setores “dominantes” da sociedade francesa. Para confrontar a polícia, os jovens organizaram barricadas que formaram verdadeiras trincheiras de guerra nas ruas de Paris. Manifestando sua oposição ao regime educacional, invadiram universidades.

 

Mas a revolução não ficou só em ações depredadoras. Os estudantes também travaram uma grande batalha no campo ideológico, usando de muita criatividade e ousadia. Cartazes, faixas e pixações nos muros estampavam slogans irônicos, como “É proibido proibir”, ou "Sejam realistas, peçam o impossível". Com isso, os estudantes conseguiram inserir na sociedade francesa verdadeiras lições de sobre os “novos tempos, a liberdade e a rebeldia”.

 

O maio de 1968 não ficou só na lembrança dos franceses. A revolução, que começou na França, logo ganhou repercussão em vários países, seja de maneira direta ou indireta. O mundo conheceu, a partir do exemplo francês, o sabor da luta pela liberdade, pelo direito das minorias e pela igualdade.

 

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